Ted Lasso e suas lições para o marketing e a gestão de clínicas médicas
MARKETING ESTRUTURAL
LeMa

O fundo era limpo, em tons de verde e azul. No centro, um treinador com roupa esportiva, sorriso tranquilo e aquele ar de quem parece amigável demais para ser ignorado.
Era o cartaz da séria da Apple TV, Ted Lasso.
Ainda assim, na primeira vez, ignorei. Achei que fosse apenas mais uma série sobre futebol. E, naquela fase da vida, já havia sombras suficientes dentro de casa e dentro de mim. Era pandemia. O mundo estava torto demais para que eu quisesse assistir a qualquer coisa relacionada a tática ou competição.
Um ano se passou. Então, dei play.
Ri no primeiro episódio. No terceiro, já não ria da mesma forma. Algo havia se tornado mais profundo.
Percebi que a série fala pouco de futebol. Fala de gente. De ego. De insegurança. De liderança. De construção de vínculos. E de algo que quase nunca aparece no planejamento estratégico, mas sustenta qualquer organização: caráter.
Reassisti às três temporadas com caderno na mão. Não como fã, mas como aluno. Queria entender o que fazia aquele treinador aparentemente ingênuo gerar tanta transformação ao redor.
E talvez você esteja se perguntando: o que isso tem a ver com marketing para clínicas médicas?
A pergunta é justa.
Mas e se o marketing mais forte de uma clínica não começar na campanha e, sim, na forma como as pessoas se relacionam lá dentro?
O erro que não está no Google Ads
É possível dominar o tráfego pago.
Ter vídeos cinematográficos.
Contar com um site rápido e uma identidade visual impecável.
Tudo isso importa.
Mas, se a cultura interna estiver fragilizada, o marketing vira verniz. Bonito. Liso. Superficial.
Aqui está o ponto contraintuitivo.
A maioria acredita que o problema do marketing está fora: no algoritmo, na concorrência, no orçamento, na propaganda ou nos fornecedores.
E se o gargalo estiver dentro?
Gestão é, antes de tudo, gestão de pessoas.
Cultura molda comportamento.
Comportamento molda experiência.
Experiência molda reputação.
É um sistema interligado.
No entanto, há uma camada ainda mais profunda. Não basta acreditar que tudo dará certo. Otimismo vazio não sustenta nada. O próprio Ted descobre isso quando suas dores vêm à tona.
A verdadeira liderança não ignora o mal, não nega conflitos e não finge que está tudo bem. Ela reconhece as rachaduras e, ainda assim, escolhe agir com decência. E isso, no fim das contas, não deixa de ser estratégico.
Ted Lasso e suas lições para o marketing e a gestão de clínicas médicas
Publicado em 14 de fevereiro de 2026.




O líder que parece tolo
Ted parece ingênuo. Às vezes, até bobo.
Mas existe uma diferença enorme entre ingenuidade e a decisão consciente de agir com bondade. Ele não é cego ao mal. Ele enxerga. Apenas escolhe não ser moldado por ele.
Essa escolha me fez pensar em clínicas nas quais o gestor vive em estado permanente de defesa: sempre reagindo, sempre justificando, sempre pressionado.
E se liderança não for sobre provar que você está certo?
E se for sobre criar um ambiente onde as pessoas podem florescer?
Existe uma diferença entre performance e autenticidade. Entre parecer forte e estar inteiro.
Talvez o marketing mais poderoso nasça quando o diretor deixa de encenar autoridade e começa a viver coerência. Porque coerência gera confiança, e confiança sustenta qualquer estratégia de longo prazo.
Amizade, confiança e fidelização
Há algo que atravessa a série inteira: amizade.
Não a amizade superficial, mas aquela que se constrói a partir de três elementos simples e desafiadores ao mesmo tempo:
Objetivo em comum.
Tratamento próximo.
Cuidado mútuo.
Sem intimidade, não há amizade.
Sem cuidado, não há vínculo.
E aqui surge uma provocação inevitável: como uma clínica espera fidelização sem construir vínculo?
O boca a boca não nasce do anúncio. Nasce da relação.
As pessoas retornam onde se sentem vistas. Onde percebem que importam. Onde entendem que não são apenas mais um número na agenda.
O marketing externo apenas amplifica aquilo que já existe internamente.
Se há cuidado, ele ecoa.
Se há indiferença, ela também.
Nem só vitória, nem só virtude
Outra lição marcante é que não se trata de escolher entre resultado e pessoas.
É possível buscar excelência técnica e, ao mesmo tempo, cultivar caráter.
Não precisamos optar entre vencer ou cuidar. Podemos vencer cuidando.
Clínicas precisam de metas, números e crescimento. Isso é inegociável. No entanto, pessoas continuam sendo mais importantes do que o placar.
E, curiosamente, quando pessoas passam a importar de verdade, o placar costuma melhorar.


Perdão, responsabilidade e maturidade
A série também aborda um tema desconfortável: perdão.
Perdoar não é esquecer.
Não é minimizar erros.
Não é abrir mão de responsabilidade.
Perdoar é libertar-se do peso que paralisa.
Quantas clínicas permanecem presas a ressentimentos internos? Entre sócios. Entre líderes e equipe. Entre passado e presente.
Sem reconciliação madura, não há cultura saudável.
E sem cultura saudável, qualquer campanha se torna frágil.
Otimismo com os pés no chão
Ted acredita. Mas ele aprende que acreditar, por si só, não basta.
Acreditar exige ação.
Exige responsabilidade.
Exige trabalho diário.
Um biscoito de cada vez.
O mundo não melhora apenas porque desejamos. Ele melhora quando alguém decide agir de forma diferente.
No marketing, não é diferente.
Não se trata de esperar que o algoritmo ajude. Trata-se de construir estrutura, criar processos integrados e desenvolver maturidade organizacional.
Volto ao cartaz.
Achei que fosse sobre futebol.
Era sobre gente.
E clínica é sobre gente.
Gestão é sobre gente.
Marketing também.
Essa série ressignificou parte da minha trajetória. Por isso compartilho essas reflexões com quem deseja construir coisas boas neste mundo.
Ficam algumas perguntas:
Minha liderança está produzindo medo, pressão ou florescimento?
Minha cultura está tornando os colaboradores pessoas melhores ou apenas cobrando metas?
Estou buscando apenas performance ou também caráter?
Aprendi que as pessoas não se movem apenas por métricas. Movem-se por vínculo. Por propósito.
E isso, como já dizia uma propaganda antiga, há coisas que o dinheiro não compra.


LeMa é consultor e professor de marketing.
Formado em Design, com MBA em Gestão Estratégica (Univali) e Mestrado em Gestão do Conhecimento pela UFSC, dedica-se a desenvolver estratégias que unem propósito e método.
Entre uma consultoria e outra, escreve sobre marketing, inovação e comportamento empreendedor, transformando conhecimento em progresso.
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